quinta-feira, 16 de abril de 2009

Quilombo



Acendeu a luz improvisada.
Levantou-se, escondeu suas cicatrizes, com o movimento de seus
músculos ao se espreguiçar.
Deixa o quarto lentamente arrastando os chinelos sem preocupação
no chão de barro batido.
Passa pelo corredor que tem pouco mais de três palmos de
extensão, chega ao quarto da pequena, lhe dá um suave beijo.
Resmunga qualquer coisa com a mulher e depois lhe beija
ardentemente, se torna mais homem.
Come alguma coisa e se fortalece.
Deixa a mesa.
Vai ao quarto, começa escutar a sirene.
Então coloca sua armadura, calça jeans desbotada arregaçada
até os joelhos, camisa enrolada na cabeça e pega em baixo do
travesseiro a sua arma do dia a dia.
Sai do quarto, com os pés no chão, para sentir melhor a frieza e o
calor natural da terra.
Deixa seu barraco, desce lentamente as escadas estreitas que o
levam do morro à civilização.
No meio do caminho coloca a mão na cintura em cima da arma, ao
avistar seu oponente vestido de cinza e com o quepe para trás.
No meio da escada se encontram, puxam suas armas e o barulho
das espadas dançando é escutado por todo o morro e cidade até o
amanhecer do próximo dia.
A luta termina, um corpo cai.
Um quarto fica vazio.
Uma criança, sem pai.
Seja de um lado ou do outro.
É mais um dia.
Mais um dia de luta.
E mais uma luta no dia e assim segue.

sábado, 10 de janeiro de 2009

(Uma tentativa de homenagemmao Nelson)


Sentavam as três, a avó, a mãe e a filha sempre no mesmo lugar na igreja para missa das dez horas do domingo, na saída lá iam as três na mesma ordem pedir a bênção do padre e tornavam a casa. Era assim semana após semana, dia após dia.
Em casa era sagrado o bolo de fubá na quarta-feira e o bolinho de chuva da sexta-feira feitos pela avó.
A mãe era costureira de roupas e de vida alheia, mas só o era para as amigas.
A filha , exemplo, educada, formosa, recatada com futuro brilhante.
A bisa, havia ensinado tudo direitinho.
Numa dessas sextas de bolinho de chuva fazia um calor daqueles e de repente como não de surpresa caiu aquele pé d'água no finzinho da tarde e a missa não foi mais a mesma.
Ela tocou a campainha e coitada estava molhada dos pés aos seus vinte e poucos, desde a calça jeans a camiseta...
A avó, não demorou em pedir que ela entrasse e de apresentá-la, era ela prima, de segundo grau que morava na capital. Foi um um beijo no rosto sem jeito dado pela mãe e em troca dois beijos aconchegantes da convidada, da filha foi um beijo tímido e em troca dois beijos e um abraço apertado da prima distante.
E elas assim ficaram paradas na sala em frente a porta por quase cinco minutos até a avó levá-la para o quarto que ela ficaria.
Como de costume ela não dava explicação de nada e assim foi desta vez.
No sábado foram juntas as quatro mostrar a cidade para ela, e a cidade não fez por menos e todos saíram para vê-la.
Dia longo e cansativo e ao chegar em casa ela só conseguiu dizer?
- Preciso de um banho!
Jantaram.
Dormiram.
Acordaram e era domingo e ela não tinha roupa para igreja e a avó pediu para a filha emprestar uma de suas roupas para ela.
No quarto.
Caladas.
A filha tímida, abriu o guarda-roupa e começou a escolher o que podia emprestar e pegou o vestido longo preto, como o seu e passou para as mãos dela que sem querer tocou nas pontas dos dedos dela, para uma fuga rápida da filha.
Ela notou, claro, agradeceu com um sorrisinho e tirou a roupa para colocar o vestido.
Silêncio.
Batem na porta.
-Vão na frente que ainda não escolhemos a roupa. Ela respondeu.
A mãe quis esperar, a avó preferiu ir na frente.
Na igreja, as duas esperaram quinze, vinte, a missa toda e nem pediram direito a bênção do padre e voltaram.

em casa chegando a comida estava pronta.a filha esperava de cabelo molhado do banho com ela sentada ao seu lado a mesa